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terça-feira, 13 de abril de 2010

Vejo o Sol

Frio não está. As pastagens se fizeram secas; o sol veio nos visitar e com ele a brisa soprando-nos ideias finas, ideias de arrepiar.porque serei triste? nada vejo que possa retirar de mim tua presença, o sol não pode apagar, não pode enevoar a formação rochosa que avisto no meu horizonte imperfeito.
porque serei triste? há um caudal de esperança, a justiça anuncia-se pelo sol, tudo se tornou quente e uma nova onda levantou sua pluma de veludo, fiquei pejada dos pequenos cristais. não, que a tristeza a última rajada da sexta-feira levou. hoje volto novamente a sorrir, desse sorriso escancarado que tu gostas.
salve-me, salvou-me a estrela maior sobre a terra!

domingo, 4 de abril de 2010

LEITURA A SERVIÇO DA TRANSFORMAÇÃO(2)

 FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler - em três artigos que se completam. 45ª edição, Editora Cortez, São Paulo, 2003, 87 p.

      Paulo Freire expõe nesse livro os principais fundamentos de sua pedagogia crítica, que fez com que ele se tornasse um educador mundialmente reconhecido. O livro destina-se a todos os que estão diretamente ligados ao ensino/aprendizagem e também aos que, atuando na esfera da administração, podem interferir em projetos de reforma educacional. Mas, dado o universalismo como ele trata a sua missão educadora voltada para as classes mais oprimidas, o livro pode alcançar um público bem mais amplo.

      O volume compõe-se de três artigos, sendo o primeiro a transposição de uma palestra proferida por ocasião do Congresso Brasileiro de Leitura, ocorrido em Campinas, em 1981 e cujo título é “A Importância do Ato de Ler”; de um artigo intitulado “Alfabetização de adultos e bibliotecas populares – uma introdução”, também se constituindo numa palestra apresentada na ocasião do X Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Documentação, em João Pessoa, em 1882; e o artigo “O povo diz a sua palavra ou a alfabetização em São Tomé e Príncipe”, tratando-se de um relato da experiência do educador e sua equipe com a alfabetização de adultos, no programa de reconstrução nacional a que deu ensejo o governo de São Tomé e Príncipe após sua após sua independência, ocorrida em 1975.
A paixão de Paulo Freire por continuar dizendo coisas e ‘pronunciando o mundo’, como ele mesmo refere na apresentação do livro (p.10), parece ter motivado a publicação desses artigos nos quais podemos entrever, através de uma linguagem incisiva, as linhas máximas dessa pedagogia crítica que ele exerceu com a força de uma missão. O educador enfatiza através do conceito de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, a sua opção por valorizar o conhecimento que o indivíduo, integrante das massas populares, possui ao chegar na escola.
     O educador discorre sobre um método de alfabetização de adultos em que a experiência de vida do educando junta-se aos conhecimentos que vão sendo adquiridos na escola, num constante diálogo entre os conteúdos subjetivos e objetivos, permitindo ao alfabetizando que ele faça uma leitura crítica da realidade e com a consciência de que ele é o sujeito nesse processo.A escrita de Paulo Freire nesse artigo fez-se como um testemunho apaixonado sobre como ele vivenciou a sua leitura de mundo ao tempo de sua infância no Recife. Construído numa mistura de tom coloquial e didático ao mesmo tempo, fazendo uma introdução de seu conceito de pedagogia crítica, ele conta nesse relato que, mesmo sem saber as letras, podia “ler” as coisas e seres que o rodeavam no seu mundo imediato. Assim, ao distinguir a palavra “gato”, por exemplo, já na escola para onde ele foi em seguida, a sua memória guardava a existência do ser que a palavra designa, pois já o havia visto, sentindo e interpretado a natureza do bicho solto no quintal de sua casa. Assim, ele entende que o seu processo de alfabetização iniciou-se, na prática, com sua experiência existencial, tal como descreve: “fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz”. (p.15).
        Continuando a exposição de sua teoria da leitura do mundo que precede a leitura da palavra, o educador fala do aprendizado já na escola, afirmando que a leitura da palavra, da frase, da sentença não se constituía numa ruptura com a experiência de ‘ler” o mundo, antes a complementava na apreensão da língua e da linguagem, propiciando o avanço numa leitura mais profunda do mundo. Já como professor de Língua Portuguesa, o jovem Paulo Freire conduzia a análise da gramática com seus alunos, identificando-a no corpo do texto, de maneira que o estudo dos pronomes, por exemplo, “não era reduzido a tabletes de conhecimento que devessem ser engolidos pelos estudantes”, (p. 17). Este método distancia-se daquele que se desenvolve a partir das cartilhas e cujo aprendizado enfatiza o uso mecanizado da memória. Para o educador, um aprendizado que se tece na experiência existencial do educando e não do educador, numa linguagem que traduz seus anseios, suas inquietações, reivindicações e sonhos torna-se um ato criativo em si e, desse modo, também político.
No artigo seguinte, ao apresentar suas idéias sobre a formação de bibliotecas populares, Paulo Freire, derrubando o mito da neutralidade na educação, afirma que educar é sempre um ato político. A fim de que melhor identifiquemos a função educadora desse ato político, Paulo Freire aponta as diferenças entre uma prática educativa ingênua, uma prática astuta e uma crítica.
       De fato, para ele, a educação, ligando-se intrinsecamente às questões do poder, pressupõe a existência de uma ação educativa em consonância com a classe dominante, muito embora ela não se restrinja em ser apenas reprodutora da ideologia dominante, pois também reflete as suas contradições. Para ele, o educador tem efetivamente uma posição política à qual deve estar coerente em sala de aula. Entretanto, educar na perspectiva de uma pedagogia crítica é desenvolver uma escuta correta junto ao aluno para que ele tenha a sua palavra. Nesse sentido é que o educador exerce uma ação libertadora, não elitista e não autoritária junto ao educando, respeitando os seus níveis de compreensão, de humildade, mas também de capacidade crítica. Sendo assim, o educador deve colocar-se também na condição de aprendiz, pois como o autor observa: “quem sabe saiba sobretudo que ninguém sabe tudo e que ninguém ignora tudo” ( p. 27).
        Já na visão ingênua, a educação se dá tendo em vista um tipo ideal de ser humano em que o conhecimento é algo acabado, engessado. Nessa perspectiva há uma compreensão mágica da palavra, que deverá promover uma transformação social a partir de uma maior conscientização de quem a estuda. Na prática ingênua, o alfabetizando é visto como alguém que, ao adquirir o conhecimento, emergirá das trevas de sua total ignorância. A prática educativa astuta, no entender de Paulo Freire, é aquela em que a ideologia autoritária é exercida de modo consciente e por isto reacionário. A cultura dominante impõe-se às massas populares de maneira invasiva, através de textos que pouco ou nada têm a ver com o contexto na experiência existencial dos trabalhadores.
         A partir de suas concepções teóricas e de uma longa prática pedagógica, a constituição de uma biblioteca do povo, a seu ver, deve levar, prioritariamente em conta, os textos que são produzidos na comunidade a que se destina. Assim, ele preconiza uma biblioteca a partir do levantamento da história do grupo, cujo material seria composto, por exemplo, de entrevistas gravadas, com o testemunho dos habitantes mais antigos do lugar. O acervo incluiria as experiências e eventos que constituem a memória do grupo, contemplando principalmente os artistas e personagens que marcaram a sua trajetória. Ele sugere que este material também poderia ser útil na aplicação dos cursos de alfabetização. Esta seria, na visão do educador, a forma mais justa do direito que o povo tem de “ser sujeito da pesquisa que procura conhecê-lo melhor e não objeto da pesquisa que os especialistas fazem em torno dele”.( p. 34).
         A experiência na alfabetização de adultos de São Tomé e Príncipe, que havia sido recentemente libertado do jugo colonialista português, foi relatada no último artigo do livro. Paulo Freire defende nesse texto uma pedagogia de engajamento nas lutas libertárias, indicando também que o educador deve assumir sua opção política junto ao Governo com o qual atua, evitando se distanciar num posicionamento meramente técnico. Numa nação pobre do ocidente africano.
cuja população era, em sua maior parte, analfabeta, o seu método teve não só uma função educadora, mas político - revolucionária na medida em que os conteúdos dos cadernos de cultura, que eram empregados como materiais didáticos nos círculos de cultura, tinham características claramente doutrinárias visando dar continuidade ao processo de reconstrução nacional.
         O relato de sua experiência em São Tomé e Príncipe é uma prova viva de como o método alfabetizador de Paulo Freire dirigido às classes historicamente oprimidas funciona em sua excelência, principalmente pelo fato de ter sido estruturado com finalidade libertadora. Ele pode ser aplicado em São Tomé e Príncipe pelo fato de o governo revolucionário ter assumido o compromisso da educação em massa junto à nação. Criados no Brasil e para ele, os métodos pedagógicos de Paulo Freire ainda não lograram ser amplamente aplicados, muito embora sejam necessários neste país de tão fortes tradições de arbítrio que tendo sido ‘inventado’ de ‘cima pra baixo’, e autoritariamente, precisa ser reinventado em outros termos, tal como afirmou. (p.30).
         A reedição desse livro em 2003, fazendo parte da coleção “Questões da Nossa Época” adquire uma real importância principalmente porque a sua temática não se esgota, sendo de utilidade para nortear projetos de fato inovadores. Dono de um ideal plasmado também em aspirações utópicas em que pesa o fato de eles não serem totalmente exeqüíveis, a obra desse educador universal veio para ser definitiva.