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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O CONTO " MISSA DO GALO" - AFINAL O QUE ACONTECEU NAQUELA NOITE?





         Os contos, como se sabe, têm origem numa longa tradição oral sob a égide do maravilhoso quando se chamavam "estórias" e geralmente se começava pela expressão “era uma vez”. Originários das narrativas orais islâmicas, os contos de As Mil e Uma Noites, que se divulgou na Europa, no século XVIII, podem ser considerados a pedra de toque para o desenvolvimento de nossa tradição escrita. O conto moderno nasce junto com a imprensa também sob a batuta de Edgar Alan Poe e Tchecov a partir dos quais se desenvolve uma teorização sobre o gênero.
         Machado de Assis escreveu 218 contos, publicando-os em revistas e jornais de seu tempo. Utilizando-se, inclusive, de pseudônimos e conquistando um grande número de leitores com narrativas de cunho romântico ou realista, mas quase sempre sob o primado da dúvida e da ironia crítica, ele deu notoriedade e popularidade a esse gênero no país. Há uma tradição critica, inclusive, que considera Machado de Assis melhor contista que romancista. Lucia Miguel-Pereira (1950, p .96-98), chega a afirmar que os romances concebidos pelo célebre autor são como contos interligados por capítulos de teor, ao mesmo tempo, reflexivos e explicativos. Esta estudiosa da obra machadiana chegou a afirmar que foi como contista que o chamado bruxo do Cosme Velho escreveu verdadeiras obras-primas.
          O conto objeto de nossa análise, “Missa do Galo”, constitui-se numa das peças modelares da historiografia literária brasileira; foi publicado pela primeira vez no periódico “A Semana”, em 1894 e em 1899 ele foi incluído na coletânea "Páginas Recolhidas". Escrito com a concisão que se exige às histórias curtas, o conto constitui-se num relato em primeira pessoa do personagem Nogueira sobre um colóquio que tivera com Conceição, uma mulher casada, numa noite de natal. Nogueira, então um jovem com 17 anos, veio de Mangaratiba para concluir os estudos preparatórios, tendo se hospedado na casa do escrivão Menezes, que fora casado com uma de suas primas e agora era marido, em segundas núpcias, de Conceição. Tendo combinado ir com um vizinho para a missa do galo, resolveu esperar dar meia-noite, (hora em que deveria acordar o amigo), na sala da frente da casa onde, além do casal, viviam D. Inácia, mãe de Conceição e mais duas escravas.
         Além disso, havia o detalhe de que Menezes, a pretexto de ir ao teatro, havia saído naquela noite para ir ao encontro de sua amante, fato que Conceição não só sabia como tolerava. Enquanto espera, Nogueira se encontra na sala a ler o livro "Os Três Mosqueteiros", de Alexandre Dumas. Conceição adentra o recinto, de repente, vestida com um roupão, iniciando-se assim uma conversação cujo sentido explícito é pontuando de observações corriqueiras sob uma atmosfera crescente de velado erotismo. O clima erótico transparecerá nas falas e gestos pontuadas de subjetivismo, tendo em vista os olhares, as observações e certas partes do corpo de Conceição, que se revelam inesperadamente em aproximações e movimentos de recuos, como se nota em frases como estas: “perto ficavam nossas caras”, “sem desviar de mim os grandes olhos espertos”, ‘pôs as mãos no meu ombro’,”não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente e eu vi-lhe metade dos braços “.
         O cenário, montado a partir de um recorte memorialista, sobrepõe-se a um discurso aparentemente inocente entre os dois personagens, mas o narrador, Nogueira, constrói a tese de que teria sido alvo de uma provável sedução naquela noite de natal. As pistas são dadas a nós, leitores, nas entrelinhas, incluindo as marcas discursivas em que o autor sugere-nos que cheguemos á conclusão do que realmente teria acontecido. É desse modo que o tom de ambigüidade perpassa toda a narrativa, construindo-se, exclusivamente, sob o ponto de vista do narrador com Conceição sendo-nos apresentada como uma figura evocada  apenas de suas lembranças.
       A fortuna crítica em torno dessa personagem feminina coloca-a na categoria das mulheres enigmáticas que Machado de Assis criou e na qual se inclui a célebre Capitu. O enigma em torno de Conceição é sobre se ela pretendeu seduzir Nogueira, inclusive considerando-se a possibilidade de um desejo de desforra pela traição do marido ou se a sua permanência na sala foi apenas uma casualidade movida pela insônia. Esta dúvida sobre o seu comportamento permeia a célula dramática do conto, que se mantém com unidade de tempo e de espaço e cujo relato pode ser entendido também como uma investigação. E, de fato, a narrativa começa com a sugestiva frase: “ Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta” ( Assis, 1998, p. 387.).
        Esta é uma peça-chave a partir da qual é permitido ao leitor acompanhar não somente a dúvida do narrador como também que se possa verificar por uma observação mais arguta as suas verdadeiras intenções por trás de uma aparente ingenuidade. Mas à Nogueira é dado o poder de, unilateralmente, criar um relato cujas significações apontam mais para a intencionalidade de sedução de sua interlocutora. Ele coloca em Conceição, por exemplo, a responsabilidade de prolongar a conversação, como se pode ler nesta passagem: “Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria e eu pegava novamente na palavra”. ( Assis, 1998, p. 388).
      O recurso do flashback  permite ao leitor prosseguir avaliando as diversas situações em que, discorrendo sob o colóquio que teve com a jovem senhora, o narrador descreve também suas atitudes:


"E não saía daquela posição, que me enchia de gozo, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar para ser ouvido; cochichávamos os dois (...) Ela às vezes ficava muito séria, com a testa franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas" (Assis, 1998, p. 389).
        De fato, uma das características dessa narrativa sobre a temática do adultério é trazer o leitor para o meio da cena em que os dois personagens conversam a fim de que sejam tiradas as conclusões sobre o fato ocorrido, julgando inclusive se a ingenuidade com que o narrador deseja ser identificado realmente procede. E para a sedutora Conceição há palavras enfáticas como as que se seguem:


"Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois, referiu uma história de sonhos.(...) A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse nem pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta..".(Assis, 1998, p. 388).

       A atmosfera enigmática e sedutora prossegue com as pistas que o narrador Nogueira vai tecendo com o objetivo de que lhe sejam tiradas as dúvidas. Mas estas dúvidas não parecem tão plausíveis em comentários como este:

"Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir, mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessa vez creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente" ( Assis, 1998, p. 388).


         A imprecisão é uma das marcas discursivas deste texto machadiano com as dúvidas e incertezas sendo apresentadas pelo narrador como uma espécie de teia de “ilusão” em que também vamo-nos envolvendo. Ele assim expressa sua confusão: “Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me”. ( Assis, 1998, p. 391.). De acordo com Jaison Crestani, no seu artigo “O Narrador sob Suspeita: Uma leitura do conto ‘Missa do Galo’ de Machado de Assis”, ( Crestani, s/d, p. 6 ) a confusão referida pelo narrador não passa de um argumento sobre o qual ele sustenta a sua aparente inocência. Dessa forma e de maneira contraditória  ele também nos oferece alternativas para se compreender Conceição de outro viés, o da inocência. Ele mesmo refere que quando Conceição adentra a sala ele “estava completamente ébrio de Dumas", o que sifnifica dizer que estava envolvido naquela atmosférica romântica, bastante propícia às imaginações do coração. A presença da jovem senhora configurava uma poderosa motivação à medida em que ela lhe transmitia “ um ar de visão romântica”. Visto dessa forma, a leitura de "Os Três Mosqueteiros" foi determinante em suas impressões.
         Com relação à traição de Menezes, o narrador elogia em Conceição a bondade e a paciência:  "Boa Conceição! Chamavam-lhe ‘santa’, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido” ( Assis, 1998, p. 387). Também os quadros de motivação profana na parede da casa não agradavam à dona; religiosa, ela teria preferido os de santos, expressando-se assim: “eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório”. ( Assis, 1998, p. 389).
Ainda segundo Crestani, as impressões sobre razões e sentimentos colocadas pelo narrador no seu relato atuam como artifícios para dissimular junto ao leitor suas verdadeiras intenções ao permanecer na casa dos Menezes numa época em que ele já devia estar em Mangaratiba. – Teria sido mesmo a missa do galo a motivação principal para que ele permanecesse na corte? Citando Bosi, o autor do artigo supracitado, afirma que um desses artifícios se faz presente num exercício dialético que ora afirma ora nega ou oculta. Esse procedimento é o que se poderia chamar de “atenuação das negativas”, o que efetivamente as anula. O relato de Nogueira neste conto seria construído na perspectiva de ele dizer o que vê, (no caso, descobrindo) e depois desdizer numa atitude de encobrimento. O efeito criado é o de uma espécie de teia textual sempre apontando para a dupla possibilidade de culpa ou inocência. Esta dubiedade se esboça também no comentário que o narrador faz sobre o dia seguinte ao colóquio:

"Na manha seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural,benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera ( Assis, 1998, p. 391).

      Na perspectiva de suas lembranças compreendemos que Nogueira continuará interessado nos destinos de Conceição, acrescentando ao seu relato o seguinte comentário:

"Pelo ano bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido" ( Assis, 1998, p. 391).
      Conclui-se pelo relato do personagem Nogueira que há uma prevalência para o jogo da sedução com a iniciativa da personagem Conceição. Mas a interação entre ambos, realmente, aponta para uma participação ativa de Nogueira, que deseja se passar por ingênuo. As marcas lingüísticas desse conto machadiano também apontam para a existência de um leitor implícito com o qual o autor interage na apreensão do acontecimento que marcou a vida do nosso personagem.
      No conto “Missa do Galo”, Machado de Assis nos brinda com uma narrativa focalizada no microrrealismo psicológico, que remete a um jogo de xadrez ao ziguezaguear num tom profuso de reminiscências emotivas, transformando o discurso metonímia sobre a dubiedade humana.


REFERÊNCIAS :




ASSIS, J. M. M. de. Contos: uma antologia/ Machado de Assis. Seleção, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, vol. 2.

CRESTANI , Jaison. O Narrador sob Suspeita: uma leitura de ‘Missa do Galo’, de Machado de Assis. s/d , www.delberandaro.com/abralic/txt_14pdf.

GOTLIB, N. B. Teoria do Conto, 10 Ed., São Paulo: Ática, 2003..










domingo, 25 de setembro de 2011

POEMA ROMÂNTICO

Hoje uma cidade inteira
gritou o teu nome.
Nas avenidas desertas
os cães uivaram a tua ausência.

Ninguém saiu para comprar o pão,
na casa todos aguardavam
as notícias nos matutinos.

Bancos de praças
desapareceram
sob o escombro das folhas
nesse outono precipitado.

Nuvens descarregaram
um odor violento,
ouro e prata derreteram,
não mais se ouvia o som da música.

Uma saudade danada
partiu os potes da vizinha,
uma fúria de poeira
avisava que não mais vinhas.

Os pássaros fizeram à solo
sua rota secreta sobre o planeta.
-O amor não mora mais aqui.

Guardou-me um resto de chuva
com que enchíamos os nossos barquinhos.
Nada mais eu disse.

O amor é tão forte,
na falta dele
todas as palavras tornam-se
impossíveis.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ANOTAÇÕES PARA UMA BIOGRAFIA DE SANGUE



Pensei estar vendo

algo mais que a minha

própria sombra,

uma luz difusa

que não se mostrava

mais que alguma deformidade

do meu interior.


Tentei acordá-los,

pedir-lhe para dizerem algo,

mas não, o sono abateu-os

com sua nuvem de chumbo

e eu aqui tão próximo

da morte deles.


Essa mordente angústia

foi o ápice de todo o tempo

durante o qual

as coisas da minha vida

e da minha morte

cumpriam as profecias.



Esse momento é o do espelho

em que sozinho me vejo

debruçado no abismo da

sepultura.


( Paraste de ouvir-me,

porque já não me falas?)

Senti todas as forças

convergirem sobre minhas costas,

O mundo virá sobre mim,´

secretamente

e da maneira mais sórdida.



Mas os poderes do céu

permanecem junto comigo

ainda que sob os espasmos

de um brutal silêncio.









quinta-feira, 21 de julho de 2011

FINE

Pede-me silêncio
este momento.
O Deus - emanuel partiu.
Vi restos de palavras
enrolarem-se sob a poeira
altíssima, fragores
e esquinas desnudadas.

A noite desceu em zoom
sobre o planeta,
Nada havia a me cobrir
pelo sidéreo espaço.
O irmão da minha alma
partiu.
Desertou,o amor do meu amor

sábado, 16 de julho de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O RINOCERONTE

Ficaram
os murmúrios e ressonâncias-
Dele,
sobram-lhe as patas,
pesa-lhe o monumento:
todos o respeitam.
-quem sabe de seu sentimento
comprimido por capa grossa
de pele e dobras?

Desejou ser um pássaro,
hoje mais pesado em sua solidão.

Sem saber que aí está
sua impossibilidade,
quis o vôo ( que se desenhou em seu pensamento),
para além do coração.

sábado, 4 de junho de 2011













O REI VIRÁ


Ainda não surgiu o branco cavalo

alado trazendo sobre o seu dorso

um rei coroado de vestes cor púrpura.


- Num átimo destruirá todo o mal.


Antes disso as potestades

no final da tarde tramam

e escutam entre os muros.


Antes disso, o amor

tem sido arrojado

à cruéis ventos contrários.


E até que venha o tropel sagrado

homens e mulheres proferirão

palavras inefáveis,

de luto diante do santuário.


Vem e não tarda

aquele que é fiel e verdadeiro.

Os seus olhos são chamas de fogo

e de amor inteiro.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Aquarela

Hoje ouvi a voz do silêncio
tirando-me as palavras
que se repetem metálicas ao meu ouvido.

Um movimento da brisa,
trouxe-me as verdades eternas.
E um novo dia fez-se sentido.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

JANELAS





Não foi sonâmbula que eu te vi, oh Deus.
uma estátua em pátina num altar quebrado
foi numa tarde morna entre as brumas do mar
em frente a minha casa.


Nem foi nos livros ou nas palavras
compactadas dos versículos.
Foi porque sopravas no ar de mim tão perto.
E eras quase corpóreo:
-trouxe-te aqui para falar contigo.


Combinamos coisas diversas,
de um lado, que eu tivesse calma,
de outro tu me enches de esperança.


O mar estava calmo,
as pessoas se divertiam.
na paisagem a minha frente vária
janelas se abriam
apresentando-me o futuro.



A PORTA
 


Dado que as Suas misericórdias
a cada manhã se renovam,
hoje se me abriu uma porta:
era o mar.


E foi com violência quase
que sobre mim
transbordaram as suas águas



O SILÊNCIO


Comecei a buscar a Deus
e vi que meus lábios eram impuros;
busquei encontrar a Deus
e vi que meu coração estava triste.


Continuo a buscá-Lo
com a sede dos animais marinhos
e como as corças suspiram
pelas margens.


Salva da tempestade,
paredes do meu quarto
guardam o silêncio
em que Ele começa
a falar comigo.
 
 
 
 
 
 
 
 

OS CUIDADOS




O silêncio
fechou-se em minha alma.
Dentro, há um ser
Que olha para Deus.

Sob seus pés
o chão como que se abre,
mas mãos invisíveis o mantêm.

Há um grande temor
acerca da verdade.
e hoje ela veio de encontro
me conduzindo por caminhos
exatamente opostos aos cuidados
sob os quais um dia me cobri.



ÁGUA VIVA


Rios ameaçam
brotar de dentro de mim
para que nunca mais
o chão onde piso
permaneça o mesmo.


Rios de águas cristalinas
ameaçam mudar a história
por caminhos que desconheço.
 
 
 
 
 
 
 
 


 
A VISITAÇÃO





Deus este aqui.
-Onde?
Onde o perdi.


Dele sei ser apenas o princípio,
Daquele por quem vim e busco,
Como Ele busca a mim.


- Ver Deus é o sonho prometido ao mundo.


Para Ele as paredes estão vestidas de cortinas
e na sala de visitas Sua presença é incontida.
Ah , tua presença enorme
-onde agora?
com as rosas,
-medidas de Teu carinho.


Caminhos a Ti me levam
à solidão dos palácios
em que as résteas apenas avisam
que cheguei muito depois de Tua partida.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

LEVANTA E ANDA





Não tenho ouro nem prata

mas trago a ternura

desta palavra- espada:

Levanta!



Soube que vivias

entre os pórticos e as calçadas

como um apátrida

e que no Templo

nada mais sonhavas:


anda!


Ainda hoje

teus sonhos estarão inscritos

em letras grandes

nas telas do universo

onde também estarão

grafados para tua memória

estes versos.

sábado, 23 de abril de 2011




ESTRANHO AMOR




Que amor é esse?
Amor de punhal,
Solferino,
De areia ensaguentada,
cruz arrastada
Em meio ao cruel tumulto.
-Que amor é esse, minha mãe?
A mãe fica muda.
Alguém que me responda?
Nada. Só hoje as estrelas soluçam.
Gotejam suor os lombos da terra,
seguimos por uma estrada única.
Almas lívidas, almas pálidas,
Caminham sob luz profusa
Olhos quase cegos Te procuram.
Lançamo-nos sobre Teus pés,
Beijar teus pés,
Banha-los em lágrimas,
Embalsamá-los,
Pensar-lhe as feridas.
Hoje somos nós
Que tomamos o teu corpo,
Abraçamo-lo como mandou o Anjo.
Que amor é esse?
Perguntamos sem voz.
Látego, sôfrego,
Trago-o como fogo.
Água, lava-me
Este amor de louco.
Jesus, tua cruz, tua loucura.
À meia noite me calo
Em prece de menina que sonha,
Soluço palavras imensas de carinho:
Acredito nele
Mas não me dizes
Que amor é esse tão estranho

domingo, 17 de abril de 2011

UMA LINGUAGEM PARA O TÉDIO

Reflexões sobre o livro Louco no Oco sem Beiras de Frederico Barbosa


A revolução estética fundada no Movimento Modernista nos trouxe inovações definitivas, pelas modificações nas estruturas fônicas, léxicas e sintáticas do discurso. Estas modificações incidem sobre o significante e não casualmente os experimentalismos modernistas integram os mapas inventivos onde se situam poetas como Mallarmé, Rimbaud, Apollinaire, Valery, Maiakovsky, Pound, dentre outros nomes para os quais a palavra desvincula-se do seu significado superficial ou corrente e é explorada ao limite nas suas possibilidades linguísticas .

O divisor de águas desses tempos pós-modernos foi empreendido nos laboratórios do Modernismo da fase heróica e muito deve aos experimentalismos em prosa e verso de um Oswald de Andrade, por exemplo e, de seguida, ao refinamento em Manuel Bandeira, mestre de nossos melhores versos livres. Com mais instrumentos nas mãos e todo sentimento do mundo floresce nesse mesmo terreno a poética anti-lírica de Carlos Drummond de Andrade.

Águas rolaram até chegarmos à busca do rigor formal refletido num projeto poético o mais desvinculado possível do pitoresco e do sentimental e que nos contempla com um de nossos extraordinários poetas, João Cabral de Melo Neto. O poeta pernambucano deixa-nos o legado de uma poesia que une a concepção do poema como produto à de participação social, atingindo um lirismo substantivo. Aspectos de sua poesia são colocados pela crítica como uma antecipação ao Concretismo. No Brasil dos anos 50, coexistiam as correntes de uma poética voltada para a invenção do poema em si e a de participação social através da qual evolui até os dias de hoje o poeta Ferreira Gullar, ele mesmo um precursor da poesia concreta, com a qual se desvinculou por optar por uma mensagem de cunho político-ideológica.

O projeto concretista retomará nos anos 50 a partir de Noigrandes, com atitudes, temas e formas que se estabeleceram no Movimento Modernista, privilegiando, radicalmente, antes a forma que a temática. O poema é identificado como objeto de linguagem. A arte é techné e sob esta premissa unem-se no mesmo espaço os projetos experimentalistas das artes plásticas, da música e do cinema, como nos lembra Alfredo Bosi, (p.529). Objetivando conceber um poema como uma estrutura verbo-visual, o concretismo apresenta propostas tais como a substituição da estrutura frásica pela de uma sintaxe espacial. Seria a aventura de mergulhar na representação do fragmentado mundo moderno regido pelo capitalismo, pelos mass media, pelo som dos comerciais e os textos fáceis, automatizados da linguagem publicitária. A mimetizção desse discurso não se faria através de versos lineares mas por uma dramática ruptura nos campos semânticos, sintáticos, léxicos e morfológicos. Ainda assim esta poética não estaria desvinculada dos conteúdos ideológicos e sociais sem o que não chegaria a cumprir a alta função estética e comunicativa da poesia.


TENDÊNCIAS

A poesia contemporânea não parece estar aprisionada em nenhuma cartilha estética. A produção poética desses nossos tempos tem na “releitura do arquivo de formas da tradição e na re-construção do verso suas marcas mais visíveis. Para alguns críticos, leitores e/ ou poetas trata-se de “uma nova estética do rigor”, segundo observa Nonato Gurgel no seu artigo “Territórios da poesia moderna”, (p. 25 ) Para este estudioso há alguns procedimentos estéticos que norteiam a produção poética na atualidade: o culto à forma, sugerindo o desejo de releitura, simulação, citação, intertexto, tudo isto calcado na tradição literária. Nesse caso, não se propõe uma ruptura das formas da tradição como se fazia no passado, quando uma estética se estabelecia às custas do rompimento com a linguagem imediatamente anterior. Há que se aproveitar as lições da tradição e contextualiza-la. Memória e informação conjugam-se nessa nova poética que coloca em relevo o material referente refletindo, no entanto, os paradigmas e saberes produzidos na pós-modernidade, apresntando-se, por sua, interligados multidisciplinarmente (Gurgel, p 26 ).

A poesia contemporânea construirá sua identidade pela diferença com a tradição. No livro do autor pernambucano Frederico Barbosa, Louco no Oco sem Beiras - Anatomia da Depressão, (2003) identificamos marcas dessa nova estética. O livro aborda os temas do tédio, da angústia, da melancolia, estados que culminam numa depressão difusa manifesta numa vida que não encontra sentido. O tédio e a melancolia são estados de alma que fundamentam a filosofia existencialista de Jean Paul Sartre. Antoine de Roquertin é o protagonista de seu livro A Náusea, o romance filosófico que publicou em 1938.

No processo de preparação da biografia do Marquês de Rollebon o personagem, que é um historiador, desencanta-se não só com a sua vida mas com a de toda humanidade. Sente aversão pela condição humana e suas próprias conclusões de cunho niilista perturbam -no de tal forma que ele se vê como um estranho, um louco, quase. Já o título do livro de Frederico Barbosa aponta-nos um sujeito poético vivendo uma existência insana, dentro de um espaço geográfico indefinido – o oco, lugar que não encontra demarcações, que não permite a adequação, ou seja, sem beiras. Este é o espaço do tédio e da melancolia, estados que se representam colocando a ênfase no significante e cujo processo de versificação privilegia os aspectos visuais e sonoros das palavras.

No plano discursivo Louco no Oco sem Beiras se constrói como um único e grande poema, apresentando-se como fragmentado ao longo de suas 81 páginas. O volume divide-se em duas partes intituladas de “O Peso” e “O P.S”, (sugerindo a sigla para a expressão em latim “post scriptum”). A indicação dessa divisão na página encontra-se no sumário e está disposta em um ideograma, com os dois ínter - títulos postos na vertical. O poema de abertura leva-nos direto à ideia de um sujeito poético em luta com a monotonia imposta por uma rotina massacrante, alienante, desesperadora, num mundo que nos convida à reprodução da mesmice, tal como se lê nos versos: “o acordar é/o grave o// dia o/diabo o/ diabólico o// sono o/sono o// horror o/ chumbo o// mais que profundo o// todo o dia o/ sempre o/ diabo azul o/ branco o/ despertador”. A simples tecnologia de um relógio que desperta é o símbolo de uma vida em tormento.

Nota-se nos poemas, todos sem titulação e no nível textual também quebrando a convenção das maiúsculas no início da frase, a construção de versos curtos nos quais identificamos a presença do recurso da paronomásia, que consiste na exploração das semelhanças sonoras, por aliterações e assonâncias. O predomínio é das vogais abertas, tudo isto disposto numa sintaxe que se utiliza do espaço de maneira convencional e, no campo léxico, a escolha dos vocábulos procura representar a fala de uma pessoa em agonia, algo repetitiva, como se verifica nestes versos: estranha urgência/ essa,/distorcida em grito/ de raio paralisador//estranha urgência/essa/certeza da /essa. A musicalidade é obtida antes pela harmonia das combinação silábicas do que pela melodia propriamente, como mimética da monotonia e de uma fala em solilóquio.

A loucura a que se refere o título não é propriamente a dos manicómios mas a da vida que se vive sem que se tenha o privilégio de uma escolha e, no limite, a que lhe determinou o destino ou a má sorte: começo-me/ como quem grita sem/luz sem voz sem vis sem vez sem mais// desfocado/fora de faro/formigando em/ câmera lenta //sem coragem/ sem o que me dispare // vou. O verbo “começar” é colocado na forma reflexiva neste poema em que o sujeito poético vai gradativamente enfraquecendo pela inadequação e sem a consciência da autonomia no seu rumo. O impulso se dilui pela existência de um grito sem que se possa emitir a voz, um grito estrangulado ou ensurdecido no meio de uma multidão que se move quase automaticamente em direção programada ou imposta. O sujeito poético desloca-se em câmera lenta, entorpecido, quer dizer, sem forças e “vai” – para onde?


INTERTEXTUALIDADE

Como enfatizou Nonato Gurgel esta poesia da nova estética do rigor constrói-se pela leitura e releitura da tradição literária. É assim a poética de Frederico Barbosa e de acordo com Amadeu Ribeiro Neto, que assina o prefácio, o sujeito lírico é a única voz presente na construção dos poemas, muito embora sua dicção assuma a expressão coletiva. Para ele, esta voz “é a de um indivíduo ( e de uma coletividade) que, paradoxalmente, protesta insatisfeito antes de mais nada, pela falta” ( p. 14). No entanto, apoiam esta voz outras vozes, as anteriores ao seu texto, no qual encontram-se registrados outros códigos artísticos pelo recurso da intertextualidade.

A página de abertura traz duas citações, de Guimarães Rosa e de Edgar Allan Poe. Trata-se de dois autores de estilos e épocas diversas unindo-se pela vontade da fala, que se expressa ou não de modo muito particular por cada personagem. A citação que se refere ao personagem - contador de histórias de Guimarães Rosa, evoca o seu sertão do tamanho do mundo e dá origem ao título do livro. “Participa” ainda desse livro outro autor romântico, Casimiro de Abreu. O sujeito lírico lembrará seus oito anos, situados numa aurora tão semanticamente diferente quando nada era tão lírico e suave, pois ele já ardia na certeza de seu deslocamento social precoce. ( p. 34.). O spleen que ocorre em Byron também ocorre no sujeito entediado e triste, o diabo o trouxe, como se pode ler no poema da página 76.

O magro cavalo de D. Quixote talvez não o isolasse tanto como quando segue calado no seu carro, tal como sugere o poema da página 55. Encontramos também neste livro, que reúne tendências, versos lineares esboçando um paradoxo sobre o tema da morte, tal como se lê: “o que me espanta não é a morte/ é ouvi-la tão aguda/que por sorte não se escuta”(p. 45 ). E tal como o personagem de Albert Camus, o sujeito lírico desses versos sobre a melancolia também descobre que está na vida como um estrangeiro: “ de Camus em diante/ deitava descrente/ e me deixava sentir/na cama morto o/morto”( p.39). Nota-se na construção dos versos a colocação do artigo definido depois do substantivo como a indicar indiferença e indefinição. Tanto faz que a “coisa” que o artigo define não esteja, sistematicamente, ligada ao sujeito.

O poeta aborda a dispersão, a banalização da fala pelos diálogos fragmentados da comunicação virtual em poemas que ironizam os chats na internet e o telefone celular, tal como se lê: “papo de chat/ chato chato/ mal de e-mail/virtualidades banais/ e meu tempo se vai/on line”. Utilizando-se do recurso da intratextualidade o poeta também empreende um diálogo com sua própria produção. O poema que inicia o livro é o mesmo que encerra sua primeira parte, diferenciado, entretanto, por uma construção nova através da inversão de algumas estrofes, sugerindo a teia labiríntica onde o sujeito lírico se insere. Também pela abordagem, por exemplo, do temas ligados ao seu livro Nada sobre Nada, que ele publicou em 1994.

Desse modo o poeta rompe com as amarras de um texto linear com a previsão do começo, meio e fim. Este é um discurso que sugere um círculo ou o sinal do infinito, na representação, talvez, desse nosso momento histórico, apresentando paradigmas que até se contradizem e que não nos permite certificações exatas para o Objeto, a Coisa, o Ser, como tão bem refere Amador Ribeiro Neto. Um tempo da des-utopia, que melhor será representado por esta proposta da des-poesia que um dia um poeta concretista proclamou.



REFERÊNCIAS

BARBOSA FILHO, Hildeberto. A Luz e o Rigor: reflexões sobre o poético. João Pessoa: Manufatura, 2006.

BARBOSA, Frederico. Louco no Oco Sem Beiras. São Paulo:Ateliê Editorial, 2001.

BARRENTO, João. O poema é uma hipótese.In: O Arco da Palavra. São Paulo: Escrituras, 2006. ELIOT, T.S. A função Social da Poesia. In: Ensaios de doutrina crítica. Lisboa: Guimarães editores, 1997. MOISÉS, Carlos Felipe. Poesia e Utopia. São Paulo: Escrituras, 2007.

GURGEL, Nonato. Territórios da moderna poesia… PAZ, Octavio. Os Filhos do Barro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. ___________. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas Literaturas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SECCHIN, Antonio Carlos. Poesia e Desordem. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.

terça-feira, 29 de março de 2011

HUMILDADE E PAIXÃO

“A poesia é uma outra linguagem, porque nela se criam realidades que têm existência intelectual e corporiedade oral, que não são possíveis fora dela” ( Antonio Gamoneda)

FILHO, Hildeberto Barbosa. “Anotações acerca da poesia e do poema”, in A Luz e o Rigor, reflexões sobre o poético, editora Manufatura, João Pessoa, 72

Nessa época em que proliferam editoras cujos serviços inclui o de fazer com que alguém se torne autor com custos e tiragens mínimas, Hildeberto Barbosa Filho vem bem à propósito neste artigo oferecer-nos uma visão aproximada sobre o que a poesia é e sobre o que ela não é... Na página 20, salta aos olhos uma definição radical do fenômeno poético, a de Ivan Junqueira. Para este ensaísta poesia é a “a mais difícil, complexa e misteriosa manifestação do espírito humano. Exercê-la é o supremo risco, e não se deve corrê-lo à toa”. O autor dividiu seu artigo em sete partes numa abordagem bastante didática em que os assuntos são dispostos em um encadeamento lógico.Seu discurso é frontal, objetivando destrinchar para o leitor o que é do que parece ser, no âmbito da criação poética e no seu produto final, o poema. O conceito de “poema” difere do de poesia, que é utilizado metonimicamente para definir o primeiro. Ele cita Octavio Paz em "O arco e a lira" para distingui-los. De acordo com o ensaísta mexicano, a poesia resulta de “uma condensação do acaso ou é uma cristalização de poderes e circunstâncias alheios à vontade criadora do poeta”, mas o poema, enquanto resultado de uma ação transformadora pelo poeta, é algo que se cria, é obra da linguagem. ( p. 19).
Na primeira parte, Hildeberto Barbosa tece considerações sobre o aspecto lúdico do poema como sendo um procedimento racional utilizado para a sua formatividade nos temos propostos por Luige Pareyson, em os "Problemas de Estética". Ele coloca essa função em evidente dependência da função estética. Um poema, em seu aspecto lúdico, se valerá de estratégias lingüísticas no que toca ao significante tanto no âmbito da sonoridade quanto no aspecto visual. Assim, a música das palavras resultará da utilização de técnicas como as da repetição, da aliteração, da onomatopéia, dentre outros recursos. Já a visualidade pode ser enfatizada através da fragmentação vocabular, da diagramação, paginação e outros recursos tipográficos. Sobretudo, no que diz respeito ao lúdico, o significado se revestirá do nonsense e da alogicidade. Um poema que apresenta uma proposta para a brincadeira sobressai pela espontaneidade, pelo despojamento. Faz-se também como um contraponto a uma poética que tradicionalmente se constrói com uma carga algo grave, solene , sublime. O exemplo que o autor do artigo nos apresenta é o do poema de Carlos Drummond de Andrade “Nomes”, do livro Boitempo II ,em que os animais são designados com substantivos cuja carga semântica remete ao mágico e o mítico, na verdade uma referência à própria palavra.

O Movimento Modernista, radicalizando em busca do puramente nacional e permitindo experiências e extrtavagâncias, legou-nos o humor às vezes terno, muitas vezes desabrido; também requintado e irônico em certos poemas com a proposta de brincadeira que identificamos na obra do poeta Manuel Bandeira, por exemplo. Para este estudioso, a vertente lúdica existe “ na poesia de todo poeta que sabe ver, em sendo verdadeiro poeta, na palavra, um delicioso brinquedo para alargar o prazer da fantasia e da imaginação” ( p. 17). Na segunda parte do artigo, o autor tece considerações sobre o fato de os jovens poetas ou “os candidatos ao Parnaso” fazerem uma grande confusão entre expressão poética e expressão sentimental. Ele afirma que nem tudo o que se escreve em verso contém poesia. Nesse caso, o poema pode estar condicionado à outras funções como a didática e a histórica, sem que se privilegie a função poética da linguagem que nos foi ensinada por Roman Jakobson. O estudioso fala ainda da possibilidade de uma “ prosa travestida”, cujos versos estariam dispostos como “linhas fraseológicas cortadas”, o que aponta para uma clara distinção entre poesia e desabafo, páginas confessionais com uma névoa de poesia, catarses destituídas de rigor estético. Este autor chama a atenção para o fato de que, o sentimento, - aparecendo em primeiro plano em todas estas expressões poetizadas - constitui-se em apenas uma partícula dessa experiência singular e mágica que é a poesia, surgindo junto aos afetos, as pulsões, desejos, inspiração. Ou seja, o sentimento não deve ser eleito como sinônimo de poético. Para Hildeberto Barbosa, o poema constitui-se numa operação intelectiva, sendo o sentimento um fator desencadeador ao qual devem associar-se “as modulações do ritmo, as virtualidades simbólicas da imagem e a surpresa da síntese ideativa” ( p. 19).

Ele cita Mallarmé para quem a poesia se faz com palavras, não com toda palavra, mas numa que se defina dentro de uma estrutura poemática que se teçe em unidade estética e que, pelo inusitado de seu arranjo lingüístico, funde uma nova linguagem. Objetivando elucidar ainda a questão da produção poética em nossos dias, este estudioso registra a opinião do ensaísta José Paulo Paes em entrevista a Heitor Ferraz, publicada na Cult: revista brasileira de literatura ( numero 22, de maio de 1999), quando ele afirma que grande parte dessa profusão de obras publicadas pertence ao terreno da pré-poesia ( p. 24). Entretanto, para o nosso autor é na quantidade que se gera a qualidade, cabendo ao crítico literário e ao historiador da literatura trabalhar essa produção de maneira a estabelecer um juízo sobre os estilos predominantes. Mas ele toca a delicada questão da falta de critério para publicação e isto se deverá tanto à má formação cultural e literária dos jovens poetas como a de seus prefaciadores com os inúmeros livrinhos publicados apontando para a carência de conhecimentos culturais e específicamente literários. Para Hildeberto Barbosa esta produção denuncia a falta de leitura da alta tradiçãob lírica que estabeleceu modelos poéticos incontornáveis. “Sem o convívio da tradição (…) não se pode encontrar um caminhgo original”, ele diz à página 26 deste artigo. O ensaísta termina por aconselhar os jovens poetas a cultivar o contato entre os mais velhos e os mais experientes e, de forma disciplinada, dedicar-se ao estudo da fenomenologia do poético. Para ele, falta à maioria dos jovens poetas paixão e humildade.

Na quinta parte desse artigo o autor comenta bem à propósito da tradição, que a construção de um poema não dispensa a intertextualidade. Ele enfatiza este procedimento também como medida para “um sólido rendimento estético” na recepção de uma obra. De fato, sobretudo a poética contemporânea pode contracenar com expoentes da tradição lírica ocidental desde Homero, de maneira implícita ou explicita. Há exemplos curiosos a este respeito no terreno da intratextualidade quando o poeta dialoga com a sua própria obra. De acordo com o ensaísta, a consciência de que a escrita se faz a partir de conteúdos intertextuais fica evidente não só pela necessidade de se obter domínio deste recurso, mas e, principalmente, pelo conhecimento em profundidade da tradição literária. Como uma grande teia, em algum ponto e de maneira mais evidente ou velada, as produções poéticas de uma dada cultura se entrelaçam, convergindo escritores e o público-leitor ao fator que os identifica.
O conhecimento da literatura pressupõe ainda a que o poeta se inteire da obra de outros poetas de sua mesma geração mesmo em face de um projeto que lhe seja completamente diferente. Hildeberto Barbosa tratra desse aspecto na sexta parte do seu artigo. Como exemplo, cita João Cabral de Melo Neto quando questionado sobre suas preferências. Enquanto grande leitor de poesia o autor pernambucano refinava seu gosto com obras que se diferenciavam da forma como concebia  sua poética . Em entrevista concedida à revista Palavra, (número 12, abril de 2000), o poeta afirmou: “não tenho o preconceito de julgar um sujeito de acordo com o que eu faço e não gosto só daquelas coisas que se parecem com o que eu faço”. João Cabral de Melo Neto ensina-nos a não nos fecharmos como em um clube, um gueto ou uma seita de atividade poética ou, mesmo assumirmos a postura de “seres iluminados” infensos à crítica, adotando uma atitude de modo que o diferente venha a ser convenientemente ignorado.Um olhar ampliado acerca da fenomenologia estética pode garantir o exercício de uma crítica consequente e mais liberta de preconceitos ideológicos. À propósito disto, Hildeberto Barbosa afirmou: “Digamos que todos (….) como que estão tentando responder dignamente ao desafio singular e epifânico da poesia” ( p. 33).

Hildeberto Barbosa também faz sua crítica à poesia que se acerca do cotidiano já na última parte de seu estudo. Ele recorre à definição do poeta espanhol Antonio Gamoneda para quem a poesia é “emanação da vida, como o amor ou a respiração”. ( p. 46) Em entrevista à revista Cult ( número 46), o poeta espanhol assim se expressou: “ sinto certo desconsolo que jovens  poetas, dos anos 50 para cá, tenham desenvolvido um realismo instrumentalizado, cotidianizado, quando a codianeidade está no jornal, na televisão…Então para que isso na poesia?”.( p.34). De acordo com Gamoneda, a poesia sendo uma outra linguagem, cria realidades que têm existência intelectual e corporeidade oral, que não são possíveis fora dela.Sobre a relação da poesia com o cotidiano, Hildeberto Barbosa enfatiza que a poesia não deveria falar do que é, mas do que poderia ser, em linha com as lições de Aristóteles. O espaço da surpresa, do improvável e do imprevisível deveria prevalecer sobre esse “cotidiano instrumentalizado” que ocorre em certo discurso em que é o efêmero que se relata assim como o trivial, o banal e cujo discurso não ultrapassa a simples codificação da constatação dos fatos. De fato, a poesia é outra linguagem. Mas dentro das suas infinitas possibilidades o cotidiano pode ser abordado num poema em que se cria uma realidade própria, espiritual, dentro de uma configuração sintática que não subsiste fora dela mesma, para utilizarmos algumas dos termos em que o nosso autor define o estado poético. Desse modo, nenhuma temática, mesmo a que emana do cotidiano, deixará de ser contemplada pela poesia e o que diferirá do cotidiano tal como ele se apresenta será o tratamento que a poética lhe concede.

O artigo de Hideberto Barbosa prende-nos também pela precisão didática ao discorrer sobre a ampla e complexa matéria da poesia, distinguindo-lhe certas categorias e atributos e objetivando uma conceituação o mais aproximada possível de seu universo. O autor oferece-nos um desses textos críticos necessários ao conhecimento do assunto, ao mesmo tempo que nele identificamos as marcas linguísticas que evidenciam o que lhe é própria, a poesia.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A PALAVRA MÁGICA

Carlos Drummond de Andrade

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

RECADO


VENHO DE UM LONGÍNQUO RECADO
PARA QUE EU CHEGASSE TODO O TEMPO
FOI PROSCRITO

E O SILÊNCIO TORNOU-SE ÚTIL A MINHA PASSAGEM.

O TEMA DA ROSA

O amor desfaz-se em pétalas
à medida do vento sobre ela,
a rosa, símbolo dessa coisa
frágil e bela.

Mas sem a rosa
os dias como que passam lívidos
e há pétalas soltas
junto com balas
perfurando livros.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Homenagem à Sophia

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado

Sophia de Mello Breyner

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

POESIA DAS ESFERAS

Poesia é a minha praia.
Num mar artificial de palavras.
O Poeta é um fingidor,
a minha poesia não mente,
inventa, transtorna,
torna a dizer-te.
Intervirá sempre
abaterá a configuração das nuvens,
ela, como o vento sopra onde quer.
E sabe o que quer.
Há cores sobre ela,
há mundos sobre mundos.
Minha poesia
faz a separação entre as águas
e como paisagem clara
põe-se à vista de tudo.