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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O CONTO " MISSA DO GALO" - AFINAL O QUE ACONTECEU NAQUELA NOITE?





         Os contos, como se sabe, têm origem numa longa tradição oral sob a égide do maravilhoso quando se chamavam "estórias" e geralmente se começava pela expressão “era uma vez”. Originários das narrativas orais islâmicas, os contos de As Mil e Uma Noites, que se divulgou na Europa, no século XVIII, podem ser considerados a pedra de toque para o desenvolvimento de nossa tradição escrita. O conto moderno nasce junto com a imprensa também sob a batuta de Edgar Alan Poe e Tchecov a partir dos quais se desenvolve uma teorização sobre o gênero.
         Machado de Assis escreveu 218 contos, publicando-os em revistas e jornais de seu tempo. Utilizando-se, inclusive, de pseudônimos e conquistando um grande número de leitores com narrativas de cunho romântico ou realista, mas quase sempre sob o primado da dúvida e da ironia crítica, ele deu notoriedade e popularidade a esse gênero no país. Há uma tradição critica, inclusive, que considera Machado de Assis melhor contista que romancista. Lucia Miguel-Pereira (1950, p .96-98), chega a afirmar que os romances concebidos pelo célebre autor são como contos interligados por capítulos de teor, ao mesmo tempo, reflexivos e explicativos. Esta estudiosa da obra machadiana chegou a afirmar que foi como contista que o chamado bruxo do Cosme Velho escreveu verdadeiras obras-primas.
          O conto objeto de nossa análise, “Missa do Galo”, constitui-se numa das peças modelares da historiografia literária brasileira; foi publicado pela primeira vez no periódico “A Semana”, em 1894 e em 1899 ele foi incluído na coletânea "Páginas Recolhidas". Escrito com a concisão que se exige às histórias curtas, o conto constitui-se num relato em primeira pessoa do personagem Nogueira sobre um colóquio que tivera com Conceição, uma mulher casada, numa noite de natal. Nogueira, então um jovem com 17 anos, veio de Mangaratiba para concluir os estudos preparatórios, tendo se hospedado na casa do escrivão Menezes, que fora casado com uma de suas primas e agora era marido, em segundas núpcias, de Conceição. Tendo combinado ir com um vizinho para a missa do galo, resolveu esperar dar meia-noite, (hora em que deveria acordar o amigo), na sala da frente da casa onde, além do casal, viviam D. Inácia, mãe de Conceição e mais duas escravas.
         Além disso, havia o detalhe de que Menezes, a pretexto de ir ao teatro, havia saído naquela noite para ir ao encontro de sua amante, fato que Conceição não só sabia como tolerava. Enquanto espera, Nogueira se encontra na sala a ler o livro "Os Três Mosqueteiros", de Alexandre Dumas. Conceição adentra o recinto, de repente, vestida com um roupão, iniciando-se assim uma conversação cujo sentido explícito é pontuando de observações corriqueiras sob uma atmosfera crescente de velado erotismo. O clima erótico transparecerá nas falas e gestos pontuadas de subjetivismo, tendo em vista os olhares, as observações e certas partes do corpo de Conceição, que se revelam inesperadamente em aproximações e movimentos de recuos, como se nota em frases como estas: “perto ficavam nossas caras”, “sem desviar de mim os grandes olhos espertos”, ‘pôs as mãos no meu ombro’,”não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente e eu vi-lhe metade dos braços “.
         O cenário, montado a partir de um recorte memorialista, sobrepõe-se a um discurso aparentemente inocente entre os dois personagens, mas o narrador, Nogueira, constrói a tese de que teria sido alvo de uma provável sedução naquela noite de natal. As pistas são dadas a nós, leitores, nas entrelinhas, incluindo as marcas discursivas em que o autor sugere-nos que cheguemos á conclusão do que realmente teria acontecido. É desse modo que o tom de ambigüidade perpassa toda a narrativa, construindo-se, exclusivamente, sob o ponto de vista do narrador com Conceição sendo-nos apresentada como uma figura evocada  apenas de suas lembranças.
       A fortuna crítica em torno dessa personagem feminina coloca-a na categoria das mulheres enigmáticas que Machado de Assis criou e na qual se inclui a célebre Capitu. O enigma em torno de Conceição é sobre se ela pretendeu seduzir Nogueira, inclusive considerando-se a possibilidade de um desejo de desforra pela traição do marido ou se a sua permanência na sala foi apenas uma casualidade movida pela insônia. Esta dúvida sobre o seu comportamento permeia a célula dramática do conto, que se mantém com unidade de tempo e de espaço e cujo relato pode ser entendido também como uma investigação. E, de fato, a narrativa começa com a sugestiva frase: “ Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta” ( Assis, 1998, p. 387.).
        Esta é uma peça-chave a partir da qual é permitido ao leitor acompanhar não somente a dúvida do narrador como também que se possa verificar por uma observação mais arguta as suas verdadeiras intenções por trás de uma aparente ingenuidade. Mas à Nogueira é dado o poder de, unilateralmente, criar um relato cujas significações apontam mais para a intencionalidade de sedução de sua interlocutora. Ele coloca em Conceição, por exemplo, a responsabilidade de prolongar a conversação, como se pode ler nesta passagem: “Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria e eu pegava novamente na palavra”. ( Assis, 1998, p. 388).
      O recurso do flashback  permite ao leitor prosseguir avaliando as diversas situações em que, discorrendo sob o colóquio que teve com a jovem senhora, o narrador descreve também suas atitudes:


"E não saía daquela posição, que me enchia de gozo, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar para ser ouvido; cochichávamos os dois (...) Ela às vezes ficava muito séria, com a testa franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas" (Assis, 1998, p. 389).
        De fato, uma das características dessa narrativa sobre a temática do adultério é trazer o leitor para o meio da cena em que os dois personagens conversam a fim de que sejam tiradas as conclusões sobre o fato ocorrido, julgando inclusive se a ingenuidade com que o narrador deseja ser identificado realmente procede. E para a sedutora Conceição há palavras enfáticas como as que se seguem:


"Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois, referiu uma história de sonhos.(...) A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse nem pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta..".(Assis, 1998, p. 388).

       A atmosfera enigmática e sedutora prossegue com as pistas que o narrador Nogueira vai tecendo com o objetivo de que lhe sejam tiradas as dúvidas. Mas estas dúvidas não parecem tão plausíveis em comentários como este:

"Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir, mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessa vez creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente" ( Assis, 1998, p. 388).


         A imprecisão é uma das marcas discursivas deste texto machadiano com as dúvidas e incertezas sendo apresentadas pelo narrador como uma espécie de teia de “ilusão” em que também vamo-nos envolvendo. Ele assim expressa sua confusão: “Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me”. ( Assis, 1998, p. 391.). De acordo com Jaison Crestani, no seu artigo “O Narrador sob Suspeita: Uma leitura do conto ‘Missa do Galo’ de Machado de Assis”, ( Crestani, s/d, p. 6 ) a confusão referida pelo narrador não passa de um argumento sobre o qual ele sustenta a sua aparente inocência. Dessa forma e de maneira contraditória  ele também nos oferece alternativas para se compreender Conceição de outro viés, o da inocência. Ele mesmo refere que quando Conceição adentra a sala ele “estava completamente ébrio de Dumas", o que sifnifica dizer que estava envolvido naquela atmosférica romântica, bastante propícia às imaginações do coração. A presença da jovem senhora configurava uma poderosa motivação à medida em que ela lhe transmitia “ um ar de visão romântica”. Visto dessa forma, a leitura de "Os Três Mosqueteiros" foi determinante em suas impressões.
         Com relação à traição de Menezes, o narrador elogia em Conceição a bondade e a paciência:  "Boa Conceição! Chamavam-lhe ‘santa’, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido” ( Assis, 1998, p. 387). Também os quadros de motivação profana na parede da casa não agradavam à dona; religiosa, ela teria preferido os de santos, expressando-se assim: “eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório”. ( Assis, 1998, p. 389).
Ainda segundo Crestani, as impressões sobre razões e sentimentos colocadas pelo narrador no seu relato atuam como artifícios para dissimular junto ao leitor suas verdadeiras intenções ao permanecer na casa dos Menezes numa época em que ele já devia estar em Mangaratiba. – Teria sido mesmo a missa do galo a motivação principal para que ele permanecesse na corte? Citando Bosi, o autor do artigo supracitado, afirma que um desses artifícios se faz presente num exercício dialético que ora afirma ora nega ou oculta. Esse procedimento é o que se poderia chamar de “atenuação das negativas”, o que efetivamente as anula. O relato de Nogueira neste conto seria construído na perspectiva de ele dizer o que vê, (no caso, descobrindo) e depois desdizer numa atitude de encobrimento. O efeito criado é o de uma espécie de teia textual sempre apontando para a dupla possibilidade de culpa ou inocência. Esta dubiedade se esboça também no comentário que o narrador faz sobre o dia seguinte ao colóquio:

"Na manha seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural,benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera ( Assis, 1998, p. 391).

      Na perspectiva de suas lembranças compreendemos que Nogueira continuará interessado nos destinos de Conceição, acrescentando ao seu relato o seguinte comentário:

"Pelo ano bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido" ( Assis, 1998, p. 391).
      Conclui-se pelo relato do personagem Nogueira que há uma prevalência para o jogo da sedução com a iniciativa da personagem Conceição. Mas a interação entre ambos, realmente, aponta para uma participação ativa de Nogueira, que deseja se passar por ingênuo. As marcas lingüísticas desse conto machadiano também apontam para a existência de um leitor implícito com o qual o autor interage na apreensão do acontecimento que marcou a vida do nosso personagem.
      No conto “Missa do Galo”, Machado de Assis nos brinda com uma narrativa focalizada no microrrealismo psicológico, que remete a um jogo de xadrez ao ziguezaguear num tom profuso de reminiscências emotivas, transformando o discurso metonímia sobre a dubiedade humana.


REFERÊNCIAS :




ASSIS, J. M. M. de. Contos: uma antologia/ Machado de Assis. Seleção, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, vol. 2.

CRESTANI , Jaison. O Narrador sob Suspeita: uma leitura de ‘Missa do Galo’, de Machado de Assis. s/d , www.delberandaro.com/abralic/txt_14pdf.

GOTLIB, N. B. Teoria do Conto, 10 Ed., São Paulo: Ática, 2003..










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