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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Me leia

O amor
em mim desenhou um ocaso.

O coração está na curva do rio,
onde passam os cavalos.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Me leia:

RECADO

Venho de um longínquo recado.
Para que eu chegasse
todo o tempo foi proscrito.

E o silêncio
tornou-se útil
à minha passagem.




POEMA EM LINHA RETA

Álvaro de Campos - heterônimo do poeta Fernando Pessoa


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
 Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
 Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
 Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
 Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
 Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
 Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
 Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
 Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
 Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.






O Poema em linha reta

             Fernando Pessoa é um poeta português que se situa entre o Simbolismo e o Modernismo. Sua obra é de teor universal e se constitui em um legado para Língua Portuguesa, junto a Luís de Camões. A característica principal do poeta e escritor português é ter concebido uma obra marcada pela heteronímia, que se constitui no desdobramento do sujeito poético em outros e que são construídos como verdadeiras personalidades poéticas. Os poemas assinados por Fernando Pessoa agrupam-se na sua obra denominada ortônima, também denominada “Fernando Pessoa, ele mesmo”. Os críticos da obra pessoana consideram o heterônimo Álvaro de Campos como o mais próximo do eu lírico em Fernando Pessoa. É ele quem assina este “Poema em Linha Reta”, que se celebrizou, inclusive, por lançar, no âmbito da literatura ocidental contemporânea, um protesto contra a vaidade, que se ampliava na apologia à vida moderna e na propagação de ideais calcados na aquisição de bens materiais em que o “ter” ganhava relevo sobre os valores em torno do “ser” naqueles fins de século XIX.           

 De fato, por um crescente desenvolvimento tecnológico, os valores estavam convulsionados e em lugar dos ideais românticos, o espírito cientificista e positivista também se fazia como um elogio ao materialismo. O heterônimo Álvaro de Campos é descrito pelo poeta Fernando Pessoa como um engenheiro de ascendência inglesa, que havia estudado na Escócia e migrado de volta à Lisboa, mas não logrou êxito na carreira. Segunda consta, ainda, é o único dos heterônimos na poética pessoana que apresenta fases em sua poesia, sendo a primeira marcada pelo Decadentismo, que aparece já no declínio do Simbolismo; a segunda, sob a influência do Futurismo, movimento que foi deflagrado pelo italiano Marinetti e que fazia a apologia do homem moderno com sua produção tecnológica.
          Por fim, a terceira fase da poética do heterônimo Álvaro de Campos teria sido marcada pela filosofia niilista, expressando-se por um total desencanto pela vida, e na descrença de respostas positivas às perguntas existenciais, escatológicas. No niilismo, tendência filosófica que surgiu após a Revolução Francesa, proclamava-se uma atitude em que se mesclam a nostalgia e o cinismo, bem como a indiferença pelos fatos essenciais da vida.
          Do conjunto de poemas assinados pelo engenheiro Álvaro de Campos destacam-se também “Ode Triunfal” e “Tabacaria”. No primeiro, o sujeito poético exprime seu entusiasmo pelo mundo das máquinas, completamente voltado para o Futurismo, mas onde se nota também um acento nostálgico, mesmo crítico e irônico com relação à relativização da importância do homem, que se vê em muitas tarefas substituido pela máquina naqueles fins de século. No poema referido, Álvaro de Campos exclama: “A dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica/ tenho febre e escreve /Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto/ Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos”.
         O entusiasmo do sujeito lírico ante as máquinas, que se oferecem infalíveis ao homem moderno, não esconde um certo estranhamento e no decorrer da enunciação também desdenha da cultura cientificista, que se impunha no mundo de então. No poema “Tabacaria”, quinze anos mais tarde, Álvaro de Campos escreveu: “Não sou nada / nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. /A parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo/[...] Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade/ estou hoje lúcido, como se tivesse para morrer”. Nesse texto, o heterônimo deságua todo desencanto, manifestando a tendência niilista que dominara a sua poética nessa sua terceira fase e que engloba também este “Poema em Linha Reta”, no qual o eu lírico expõe não só o desencanto niilista que apregoa a falta de sentido da existência mas também expõe a impotência de um indivíduo frente a um sistema que privilegia a aparência surgindo com e a necessidade competitiva.
           Este poema também nos remete à visão de mundo pessoana sobre a sociedade lisboeta de então. De maneira direta o sujeito poético faz uma declaração arrojada, pessoal, de tom muito confessional a julgar pelo primeira estrofe: “Nunca conheci quem tivesse levado porrrada,/ todos os meus amigos têm sido campeões em tudo/ e eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil/ Eu, tantas vezes irrespondivelmente parasita/indescupavelmente sujo”. Os versos revelam uma total exposição e despojamento na negativa do sujeito poético ao se colocar como uma pessoa desqualificada diante de “campeões”. No entanto, utiliza-se de profunda ironia em sua declaração que exibe um contraste entre uma posição e outra. A ironia é um instrumento de retórica, utilizado largamente para se fazer uma crítica, uma denúncia, um libelo, um protesto, colocando-se expressões de outro timbre que disfarcem aquilo que se quer dizer realmente. O poeta lança injúrias consigo mesmo para denunciar um comportamento que tende a esconder a real condição de seus pares.